
“Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? Não estão aqui conosco as suas irmãs?“ — Marcos 6:3
O contexto dessa passagem nos retrata exatamente o momento em que Jesus volta à sua cidade natal, Nazaré, onde viveu parte considerável de sua juventude. Tenho certeza, no meu coração, de que ali, naquela cidade, ele passou a exercer trabalhos da sua profissão e/ou ter iniciado por ali o seu ofício, vindo provavelmente de seu pai José. É interessante pensarmos que aquelas pessoas de Nazaré, ao receberem Jesus, espantaram-se, e o seu coração mostrou incredulidade por conta de Cristo ser conhecido naquela cidade, onde os seus irmãos habitavam e onde as suas irmãs estavam. Temos que pensar um pouco sobre o que se passava na mente dos homens dessa região. Pois imagine você vendo aquele barbeiro que você frequenta, aquele médico que o atendeu, aquele prestador de serviços que você já solicitou várias vezes, o encanador ou o eletricista, e, depois de tempos, essa pessoa se mostrar extremamente sábia, com palavras de salvação, com ministério sendo exercido por ela, sendo chamada de mestre por outros doze alunos que a seguiam. Acredito que a incredulidade do coração desses homens veio a partir desse pré-conhecimento que eles já tinham anteriormente sobre o próprio Jesus. Com certeza, Cristo já prestou seus serviços para muitos de Nazaré, seja construindo algum móvel ou até mesmo edificando alguma casa.
Olhando para os tempos atuais, nós podemos enxergar que muitos cristãos gostam de utilizar o termo “carpinteiro” para se referir à profissão de Cristo. Mas temos que ter o conhecimento de que, na época em que essa profissão era exercida, o carpinteiro tinha bem mais características de um construtor completo, tendo conhecimento e domínio não apenas da madeira, mas também utilizando pedras e alguns metais para levantar habitações e construir móveis domésticos. Durante esta pregação utilizarei o termo “carpinteiro”, porque é de mais fácil reconhecimento em geral entre os irmãos.
Com base na profissão de Cristo, trarei algumas reflexões de como sua profissão de carpinteiro foi dada por Deus e tem um propósito para a Escritura, refletindo em seus sermões, em seu propósito e também refletindo até os tempos de hoje no seu papel atual como mediador entre os homens e Deus e Salvador de toda a humanidade por meio do seu sacrifício na cruz.
“Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha...“ — Mateus 7:24-27
No decorrer dos Evangelhos, nós notamos que Cristo utiliza muito conhecimento de sua profissão terrena para empregar em seus ensinamentos. Por diversas passagens, vemos o próprio Cristo utilizando termos que fazem referência a todo esse conhecimento que adquiriu por anos e anos de ofício. Observemos que Cristo utiliza termos como “edificar”, “assentar”, “pedra angular”, “alicerces” e “rocha”. O conhecimento derivado da profissão de Cristo vai além da construção, alcançando também o planejamento prévio. Observemos o que está escrito em Lucas 14:28-30: “Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos para ver se tem como acabar?”. Observemos, irmãos, que Cristo, muitas vezes, como construtor, teve que fazer isso não de forma metafórica, mas de forma física e profissional. Não é muito difícil imaginarmos essa possibilidade. Cristo teve que se assentar e contar os gastos para construir uma moradia, pois era o papel de um carpinteiro. Lembremos também daquela parábola que fala sobre dois homens: um que construiu a sua casa sobre a rocha e outro que construiu sobre a areia. Também não é difícil imaginarmos que Cristo possa ter se deparado com situações semelhantes em seus anos de carpinteiro. Mas, claro, não tomem estas minhas palavras e reflexões como uma afirmação verdadeira, pois não posso assegurar-vos de que isso seja verdade. São apenas pensamentos que vêm à minha mente quando penso no Cristo carpinteiro. Todavia, esses pensamentos sobre o ofício de Cristo refletindo em seu ato ministerial, após os trinta anos de idade, podem nos trazer ensinamentos práticos para os dias atuais.

De fato, irmãos, todos nós temos também as nossas profissões. E, de fato, vocês possuem conhecimento terreno. Deus lhes dá isso. O Deus celestial concedeu essa profissão a vocês. E, se ele as deu, deve haver algum proveito nelas para que possam ser utilizadas também para o Reino. Afinal, ainda somos seres terrenos e temos necessidades terrenas. Necessitamos que haja médicos entre nós; necessitamos que haja professores entre nós. Quantas vezes a igreja de Cristo, durante os séculos, necessitou que construtores existissem para edificar lugares para as nossas reuniões? Observemos os ministérios que temos em nosso meio. Precisamos de operadores de som, precisamos de pessoas para trabalhar com redes sociais, precisamos de músicos para cantarmos os melhores louvores ao nosso Senhor. Então, de fato, as profissões podem ser utilizadas para os nossos ministérios, e assim deve ser feito. Deus certamente se agrada quando utilizamos nossos ofícios para o seu Reino, para a construção de uma comunidade cristã mais envolvida.
Há também outras vantagens em termos diversos profissionais em nosso meio, pois isso aumenta a nossa comunhão. Poder contar com a profissão do irmão ao seu lado é uma bênção que Deus lhe dá. Você precisa de um cuidado farmacêutico? Olhe ao redor: existe um farmacêutico entre nós com quem você possa contar? Vá até ele. Está com algum problema na sua contabilidade? Observe se há um contador entre nós. Vá até ele. Está com um problema de encanação? Há um encanador entre nós? Vá até ele também. E assim, duplamente, você abençoará a profissão do seu próximo e criará comunhão entre os irmãos.

Outro ponto que também temos que trazer à tona nesta reflexão é que Cristo, com perfeição, atuou em seu ministério e, com perfeição, também atuou na carpintaria. Teve santidade no exercício do seu ofício. Se conhecemos Cristo e sabemos que Ele é o Deus perfeito e homem perfeito, sabemos também que exerceu o seu lado profissional de forma santa e edificante. Com certeza, não se aproveitou da sua profissão para tirar vantagem financeira excessiva. Não utilizou sua profissão para competir em um mercado que não lhe daria satisfação alguma, mas que apenas lhe consumiria as energias da vida.
“Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, não para os homens“ — Colossenses 3:23
Pense que Cristo exerceu tudo além do seu lado ministerial de forma santa e irrepreensível, e isso também engloba a carpintaria.
Uma prova nas Escrituras de que Jesus realmente foi santo em sua profissão de carpinteiro é que, em Nazaré, nenhum daqueles homens queixou-se de algum trabalho dele. Nenhum deles falou: “Olha, aquele ali é o carpinteiro que fez o meu móvel malfeito”, ou “Vejam, aquele é o carpinteiro que deixou minha janela desalinhada”, ou ainda: “Olha, aquele é o carpinteiro que não fez um bom serviço para mim”. Não. Nenhum deles fez qualquer acusação contra a profissão de Cristo. Apenas o reconheceram por ela, o que, por sinal, indica que a exercia tão bem durante seu período de atuação.
Você atualmente se lembra de um bom barbeiro? Com certeza sim. Porque ele fez um trabalho tão excelente que você passou a reconhecê-lo justamente como um excelente profissional. Então, de fato, se as pessoas de Nazaré reconheceram Cristo por conta da sua profissão, é porque havia valor naquilo que ele entregava na carpintaria.
Não havia nada que os nazarenos pudessem usar contra Jesus nesse aspecto.
E nós, irmãos, em nossos ambientes de trabalho, podemos nos deparar com a mesma situação. Quando Cristo tocar em seu coração para que você pregue o Evangelho em seu ambiente de trabalho, se ocasionalmente isso também for permitido, com qual impressão você seria recebido? Será que as pessoas realmente veem que você exerce bem o seu trabalho e não estranhariam que uma pessoa como você também fosse cristã? Será que elas olhariam para você e diriam: “Ah, você nem exerce a sua profissão tão bem; como pode pregar o Evangelho se nem as coisas que são fora do Evangelho consegue exercer de forma correta?”.
Examinem suas ações e ajam corretamente em suas profissões e em seus ministérios.

“E, levando ele às costas a sua cruz“ — Lucas 23:26
Quero dizer agora, irmãos, sobre esse grande ato salvatório desse carpinteiro, seu principal propósito, para o qual foi separado por Deus: resgatar o relacionamento dos homens com o Criador. Refiro-me ao seu sacrifício expiatório, que foi executado nele mesmo na cruz. Penso que Cristo, como carpinteiro, assim como qualquer pessoa em uma profissão que envolve construção, sofreu alguns acidentes. Muitas pedras, provavelmente, escaparam de sua mão e caíram diretamente sobre seus pés. Muitas farpas de madeira, provavelmente, entraram em seus dedos. A cruz era tão pesada, e esse mesmo carpinteiro levou uma cruz tão pesada. Quantas farpas entraram nas costas do nosso Senhor Jesus enquanto carregava aquela madeira. Fico pensando na angústia do seu coração sofredor naquele momento, quando foi pregado e pendurado no madeiro, um material que ele conhecia tão bem. Cristo, o carpinteiro que sabia o peso dos martelos e dos pregos, morreu sendo pregado por nós em uma cruz. Por nós, Cristo sofreu uma dor familiar e, ao mesmo tempo, tão grande que nem podemos imaginar.
Mas, após a dor, Deus o ressuscitou dentre os mortos.
Cristo, o carpinteiro, em seu último discurso antes de subir para a glória eterna, deixou-nos uma promessa de que voltaria a exercer a sua profissão de carpinteiro, agora nos céus, fazendo morada para mim e para você. Ou seja, irmãos, Cristo veio à Terra, exerceu a carpintaria, foi um bom construtor; não apenas um construtor em profissão, mas também um reconstrutor de homens. Após concretizar o seu ministério e ressuscitar dentre os mortos, volta para o Pai para continuar sendo um carpinteiro por nós.
Cristo é a restauração do relacionamento com Deus, que nos faz considerar-nos mortos para o pecado e viver uma vida de devoção ao Senhor, com vigilância e constância, exercendo esse relacionamento por meio das práticas espirituais.
Se o pecado não tem mais domínio sobre aqueles que servem a Cristo, como entender a possibilidade de continuarmos a pecar? Existe, nesta vida, a possibilidade de ainda cairmos em tentação, pois ainda virá o dia em que a memória da morte e, por consequência, toda a impureza do homem serão aniquiladas e completamente apagadas, destruídas pelo Carpinteiro. Então tudo será novo. As velhas inquietações que existem entre os do Reino de Deus cessarão. Nós faremos morada na casa que o Carpinteiro foi preparar para nós. Cearemos com ele na mesa que ele foi fazer para nós. Cristo é o Carpinteiro dos céus.
Ele não cometeu pecado algum, e nenhum engano foi encontrado na sua boca. Quando ele era insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava‑se àquele que julga com justiça. Ele mesmo levou no corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça. Por suas feridas vocês foram curados. — 1 Pedro 2:24

